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Um poeta como Alejandro Puga - poeta vinculado ao Surrealismo -, traz a realização regular de collages, em simultâneo a seus textos e poemas. E não de colagens, haja visto sua clara atuação, a qual volta-se nitidamente para a linguagem do "tornar visível" e não mais para a simples junção de materiais. Mais para a interferência na linguagem (conforme a proposição de Ernst), despregando-se numa linguagem estendida, como se avança em vários testemunhos, em ensaios já publicados e que aqui reitero mais uma vez. Volta-se assim, o fazer de Alejandro, para a poesia e sua radicalização mesma, aquela do "dar a ver". Visível, pois, e se dando em visibilidades, enquanto descobrimento e magia deste "vício novo" que traz a imagem. Imagens em liberdade diria eu, parafraseando Marinetti, ou ainda "a imaginação sem fio" e "os estados d'ânimo", como queria Boccioni. Liberdades que o Surrealismo iria adotar na década seguinte, acrescidas das revelações do automatismo (de débito inconsciente) e dos contundentes estranhamentos, de espantos do inesperado, seja do extraordinário poema-objeto ou seja do objeto "selvagem" (sem-uso ou mais-que-o-utilitário), enfim presenças inquietantes do acaso-objetivo e da inequívoca chama, essa aura de enigma.
Além do mais é suficientemente conhecido o infortúnio crítico do historicismo nestas margens do objeto (e da collage), nestas formas novas e absolutamente modernas do abismo do entre-visto, dos sentidos que se enfeixam e caracterizam la rencontre (Breton). Reino do maravilhoso e não da invenção.

Igual lacuna vale para outros tantos procedimentos introduzidos pelos artistas do Surrealismo. Procedimentos que se pautam prioritariamente pelo não-controle ou emergência do acaso e suas modalidades, ou seja, por características contrárias à precisão técnica ou quesitos de exclusividade autoral… como exemplificam a frottage, a decalcomania-sem-premeditação, a solarização e os rayogramas, a paranóia-crítica ou o poema-objeto. É oportuno destacar que todos os procedimentos introduzidos pelo Surrealismo, bem como aqueles de que os surrealistas se apropriaram - o gesto gratuito e a intervenção iconoclasta tipo Dadá -, primam pela execução não-dirigida, não-controlada e, tampouco, pré-determinada, visto excluírem qualquer programa. No Movimento do Surrealismo não há plano, projeto ou idealização de seus meios, mas sim combate, luta para "mudar a vida e redescobrir o amor".

A ausência de reflexão sobre estes verdadeiros escândalos, uma espécie de silêncio declarado que encobre as rupturas das formas dominantes, os artifícios e as crises, os deslizamentos, enfim, são de tal ordem e se instauram decisivamente, a contrapelo da técnica tradicional, que temos um vazio, formando-se em conseqüência uma ausência de referências, ampla e irrestrita, de caráter geral. E o que temos ao fim e ao cabo desta ausência de reflexão, à sua época, é o mesmo silenciamento em relação a trabalhos que partem do automatismo, em seu senso amplo.

Recentemente, diante da possibilidade de me defrontar de golpe com o todo da série de collages de Alejandro, em seu atelier na Avenida Martín García, Buenos Aires (no último mês de janeiro), tive a chance de avaliar o enorme gesto amoroso que preside sua obra plástica, cuja Poesia se prosterna vagarosa e silenciosamente sobre a imensa iconografia cifrada do Renascimento e parte do seu sucedâneo maneirista.

É suficientemente clara e nítida a sensação de estar perante uma visão ativa do Mundo - atualização e/ou ritualização, como que se queira sujeitar determinadas equivalências. Um mundo em transformação, um mundo em re-encantação permanente, como pediam e evocavam os utopistas, particularmente Fourier e seu Nouveau Monde Amoureux. Rimbaud ou um de seus poetas favoritos, como André Pieyre de Mandiargues com sua coorte de maravilhas. Evitando o fantástico e suas facilidades, Alejandro Puga envereda e se enraíza é no maravilhoso mesmo, com toda a conjuração dos elementos das figuras recortadas, escolhidas e/ou eleitas neste processo literal de signe ascendant. Como é sabido, um dos preceitos mais polêmicos da movimentação surrealista foi, precisamente haver incorporado uma das máximas do Esoterismo tradicional e também do pensamento zen-budista: "A imagem é necessariamente ascendente e nunca descendente; a imagem, assim como a arte, é sempre mais, excessiva, nunca para baixo! nunca menos!"

Destaco que a presença de imagens duplicadas, seja por espelhamentos seja por anamorfoses, presentes em várias das collages de Alejandro Puga, são reenvios diretos aos "gêmeos alquímicos", às sombras (lado sombra, solar e lunar) ou, propriamente, ao duplo, esta experiência e configuração mesma do Outro (enquanto adversus + extremos que versam para uma mesma fonte).

Ocupa-se sempre do modelo interior, fundamento e princípio expressivo da arte praticada no Surrealismo.

Desnecessário dizer, portanto, que as collages de Puga não são historiazinhas e nem, tampouco, narrativas, pois são bem mais alterações, perturbações e rasgos que se revelam e desvelam o Outro; identificam-se mais a emblemas, enigmas, votos e ex-votos, evocativas que são de uma imanência - e não de uma transcendência. Em troca de cartas, posterior ao nosso encontro, pedi a Alejandro Puga que me enviasse algum texto ou comentário sobre seu processo de collage, procedimentos e pistas sobre seu foco no imaginário Renacentista.

Respondeu com o texto que transcrevo abaixo, seguido do rasgo, desta espécie de fascínio do raptus que chama "Aclaración". Como segue:

La Escritura Automatica (las fólades en su propia luz)

Poco tiempo después de acabar el collage que titulé La Escritura Automatica, en Agosto de 1994, leo en una revista una nota sobre el fondo del mar y sus sorprendentes bivalvos. Muchos sabrán que las fólades poseen gran fosforescencia pero lo que seguramente ignorarán es que con un kilo de ellas puede obtenerse la luz suficiente para leer un periódico. Outro dato que esa ecléctica revista brindava y que merece ser retenido: de ser comidas crudas y en total oscuridad adquieren el aspecto de carbones al rojo. !Vaya recurso el de estas pequeñas para no pasar desapercibidas, bellas criaturas submarinas que no poseen ojos!

El personaje que escogí como 'estrella' de mi collage es la Santa Elena de Cima de Conegliano, actualmente en la Galería Nacional de Washington. Por supuesto quité la corona de tan hermosos cabellos así como también la cruz que el artista italiano nunca debió pintar si pretendía ser reconocido por un futuro colega como yo. Elena de pronto se tornó irreconocible. Algunos leños encendidos que coloqué entre sus manos simbolizan no sólo la inspiración sino además su negación (es harto conocido por mí el vaivén brusco que la caracteriza) y realizan, con esa llamita trémula derramada en el inmutable rostro y en el seno derecho que ellos mismos ocultan, el combate de elementos bajo una luz hábil en confundir al espectador dado que es muy poco probable el descubrimiento de su origen, de su espectral irradiación.

Coincidencia entre el efecto buscado tras las sombras siempre intactas del artificio y el azar deseado.

Concluyo diciendo que Cima vivió muchos años de su poco conocida vida en la acuática Venecia, ciudad sublime.

Aclaración

Dado que el espacio suele burlarse de los paseos predichos
Le robo unos ángeles a LA VIRGEN DEL ROSEDAL de Stephan Lochner
E intento embellecer un fragmento de esta antigua pintura
Palpar con insolencia lo que propone de inconcluso
Una reproducción correcta es propensa al tijeretazo
Palpo sus incógnitas y destruyo la ecuación
De su aparente perfección.

Justamente no caso das collages do poeta Alejandro Puga, arrisco dizer que há uma praxis, um fazer da collage em seu pleno de perturbação da linguagem, de ruptura dos gêneros e cânones, em decorrência direta de sua vivência da poesia mesma. Ao que se soma uma rara sensibilidade, pois Alejandro livra-se, sem amarras ou peias, às visões inaugurais de novas fisionomias e novos tremores. O que nos recorda a máxima surrealista, emprestada de Rimbaud, que convoca ao "racional desregramento de todos os sentidos", ou então nos traz à mente o conhecido conselho dos mestres - "se podes dizer o que pretendes na poesia com outros meios, não há o menor interesse para o fazeres em poesia, nem se poderia dizer que o poema é a maneira mais adequada!" -, conselho que permanece exemplar no nosso caso, substituindo-se apenas "poesia" por collage.

Quase ao término do seu livro de poemas, Pararrayos, ainda em 1986 - ano de sua primeira edição em triagem bem restrita -, Alejandro Puga acalentava o desejo de ter uma apresentação por parte de seu amigo-de-cartas e poeta André Pieyre de Mandiargues (1909-1991), casado com a pintora Bona, ambos participantes do Movimento do Surrealismo - embora avessos, tanto ele como ela, às reuniões e atividades grupais. (Aproveito para observar que, mais uma vez, a pecha de ortodoxia dirigida ao grupo parisiense do Surrealismo, como se fosse um clube de carteirinha, é falaciosa e deixa de corresponder aos fatos.)

Alejandro correspondia-se com Mandiargues desde '86, ou seja a partir do envio justamente de Pararrayos. Em suas cartas, o poeta de Incongruautés monumentales (1947) ou das escritas perversas de Soleil des loups (1957), vinha incentivando muito o jovem Alejandro que então principiava. Seu desejo logo se tornou impossível, com o falecimento repentino de Mandiargues.

Convém termos em mente, entretanto, que houve identidades de laços subjetivos entre os dois autores, que reforçaram a ligação objetiva que logo se estabeleceu entre eles, Puga e Mandiargues.

André Pieyre de Mandiargues, afinal, é o autor de belo e singular bestiário, quer nos seus contos eróticos de um musée noir quer nas litanias inconfessáveis de seus poemas. Ou mesmo na andança "insensata" pelos jardins romanos que rodeiam os monstros de Bormazo. Dentre os poetas que partilham do universo sensorial das movidas de Alejandro, cabe mencionar com certo destaque, além de Mandiargues, Breton e Roussel, outros autores pouco visitados como Malcolm de Chazal, Michel Leiris, Gilbert Lely, Jean-Pierre Duprey, Joyce Mansour, Guy Cabanel, Aimé Césaire e, sem dúvida, Alberto Savinio - o poeta-pintor que se destaca na Anthologie de l'Humour Noir, ao lado do irmão Giorgio De Chirico. Note-se que todas estas heranças ou linhas mestras da Poesia, do Surrealismo, configuram o quadro de influências assumidas por Alejandro.

Como tive oportunidade de constatar em nossas conversas, além do veio comum da erótica, essas linhas fundantes da sua constelação pessoal têm grandes identidades com as minhas próprias, onde me permitiria acrescentar, para começar, Saint-Pol-Roux, Benjamin Péret e Saint-John Perse. Obviamente o falecimento de Mandiargues no início de '91, cortava qualquer chance da realização mencionada, muito embora tal conjunção fora vislumbrada já em trechos significativos, entre uma carta e outra, de suas correspondências em comum. Não saberia dizer se Mandiargues mencionou ou não nas suas cartas a questão das collages, mas posso afirmar que tanto ele, Pieyre de Mandiargues, quanto Bona exerciam de modo assíduo a collage, individual ou em grupo - do mesmo modo que a turma de Bucarest, com Gherasim Luca à frente, ou de Praga, com seus elogiados poetas-pintores, do porte de um Karel Teige, Jindrich Styrsky e Toyen.

Alejandro vem desenvolvendo nos últimos anos toda uma atividade de collage - o que não deixa de ser mais um ângulo da relação com as imagens novas de Mandiargues, que vivamente também se interessou por esta vertente da "perturbação da imagem". Como vimos, a collage firmou-se enquanto meio característico da expressão de artistas-poetas ou dos poetas-pintores do Surrealismo. Se por um lado é fato que praticamente todos os poetas do Surrealismo evidenciaram entusiasta adesão à collage - procedimento oriundo da poesia mesma, inclusive um Paul Eluard ou Jacques Prevert -, por outro cabe mencionar seus desdobramentos nem sempre lembrados no cinema, nas novas coreografias do "um-dentro-do-outro" ou da escandalosa "dinâmica visão do corpo", quer em Joseph von Sternberg quer em Busby Berkeley.

Da mesma forma julgo oportuno mencionar as companhias de Alejandro na capital portenha - a principiar pelos poetas Carmen Bruna e María Meleck Vivanco (dois nomes da geração anterior à sua), ou mesmo Silvia Guiard. Destaco ainda seu amigo Carlos D'Agostino (dito Kirim), um dos mais secretos e singulares artistas da atualidade (ademais de extraordinário creador de "objetos musicais", na qualidade de collagista e poeta-pintor), assim como Victor Chab e Gladys Gomes, artistas plásticos. É significativo que Victor Chab, com mais idade que os demais e nome decisivo na re-descoberta do "corpo do desejo", venha das movimentações surrealistas dos '50, à roda de Aldo Pellegrini, Enrique Molina, Madariaga, Olga Orozco, Alejandra Pizarnik e J. Andralis. Embora Alejandro não o explicite, fica claro que estas vozes - particularmente Pizarnik - contam e ressoam no seu universo de Poesia.

Tem sido um lugar comum a ausência de discussões e avaliação da collage propriamente dita, quer nos diversos crivos críticos do momento quer nos manuais e histórias de arte contemporânea. Nunca se fala de collage como também pouco ou nada se fala do automatismo. Menos por estarem fora das correntes em voga e mais por serem procedimentos alheios à linhagem formalista, ancorada desde muito nos reformismos que foram dominantes, do Cubismo ao Construtivismo, ou da chamada "volta à ordem" modernista.

Sublinho, apesar de tudo, que a dita escritura automática, enquanto procedimento, é o símile perfeito da mecânica do nosso pensamento. Pensamos e fazemos analogias, comparações e relações livremente, de modo automático… Contudo o fluxo do automatismo é exatamente o oposto, o contrário do fluxo dirigido e regrado do raciocinar, do pensar dentro de uma lógica (pré) determinada. É a razão lógica que inibe, censura e interrompe o curso livre do automatismo, substituindo-o ao fim por um mero discurso.

Procedimentos estes - do automatismo - que nos chegavam intermitentes e ainda fulgurantes, afinal (re)apresentados através dos futuristas, ou por via ainda anterior, pelas mãos de precursores ilustres, do porte de um Victor Hugo ou de Baudelaire, ou ainda de Nerval, Coleridge e Horace Walpole, de Turner ou Gustave Moreau, Jean Paul e Achim von Arnim, Lautréamont e Rimbaud, dentre outros românticos e avatares do Simbolismo.

Embora todos saibam que a collage, introduzida por Max Ernst em 1919, diferia em fundo e forma das colagens dos cubistas (ou papiers collés), o que acabou por vigorar foi uma noção genérica e construtivista de uso mais corriqueiro ou técnica simplista, aquela do "elemento colado", que se usa chamar de colagem. Colagem essa que conserva os padrões e cânones do "modelo exterior" da figuração, do academicismo e do formalismo pictórico. Sendo uma pintura feita com fragmentos, no lugar das tintas ou pigmentos, contudo e nem por isso era menos convencional. Colagem essa que mantinha e se apresentava obediente às mesmas normas da composição e dos estilos reconhecidos dos padrões pictóricos.

Mas, a collage não é um simples recurso de substituição, pois incide na concepção da linguagem mesma. Posso afirmar, no caso da collage, que realmente se passa outra coisa.

Há um bom tempo, já se sabe que a "perturbação da linguagem" (Ernst) nomeia a collage e a destaca enquanto uma das contribuições significativas do Surrealismo ao âmbito das artes expressivas do Moderno.

Como é de conhecimento geral e notório, a colagem tem seus primórdios nos mosaicos, outros aglomerados, ajuntamentos e justaposições de materiais - as quais têm seu modelo primeiro na concepção do todo perfeito, de um mundo perfeito e idealizado. E mais: as colagens com materiais diversos podem ser classificadas, com precisão e por isso mesmo, como sendo exatamente "técnica mista" ou "pintura com materiais diversos". Ao passo que na collage ocorre algo diferente, visto que temos o contrário do exposto como artístico, sendo quase avesso e/ou excesso da própria arte.

Gostaria de me deter, por exemplo, em uma collage feita por Alejandro Puga. Independente do seu título e das fontes que usou, de um modo geral pode-se descrever como sendo o retrato duplo ou duplicado de uma mesma pessoa, no caso uma Dama da Corte, a qual nos é mostrada dividida ao meio e repetida.

Cada retrato ou face da figura exposta está configurado pela repetição invertida da outra. Grifo que a posição dos braços e mãos, por muito especial que estão - semi-erguidos à altura do colo e rodeando o único seio exibido sob véus - reenvia expressamente ao espelhamento, algo como o interior de uma fruta aberta, digamos um pêssego (pois a cor dominante é a do amarelo-ouro e róseo), sobre o qual cruzam os dois "emes" formados pelos dois pares de seus braços, alvos, sugestivos e evocativos de um rito lunar e/ou anular…

Isto posto, avancemos na possível genealogia de sua aparição ou descobrimento, neste fazer que é a praxis de dobras e pregas, na perturbação primeira que caracteriza e resulta na collage. Saliento que a imagem assim surgida não existia antes da collage, mas passa a ser presente e objetiva a partir dela mesma! Como já mencionei, o fato de Alejandro e eu termos um repertório de interesses comuns em poesia, além do vetor determinante do Eros próprio da aventura surrealista, permitiu-me identificar logo que a figura eleita por Alejandro referia-se a um dos mestres do Maneirismo, ou mais especialmente à Escola de Fontainebleau, vertente da pintura simbolista e alegórica, emblemática da Corte francesa dos Louises (fins do XV e XVI), cujo acento erótico é bem conhecido. "L'École de Fontainebleau", embora seja pouco usual nos manuais de artes plásticas, já mereceu contudo alguns destaques, entre outros o penetrante enfoque que lhe propiciou Georges Bataille no seu ensaio Les larmes d'éros (1961). Álbum no qual consta a reprodução da pintura eleita por Alejandro, a qual intitula-se Sabina Poppaea, ao lado de outras tantas obras da Escola maneirista, cujos destaques foram Primatice, Niccoló dell'Abate, Antoine Caron, Bartholomé Spanger e François Clouet, além de outros mestres - eles todos voltados para "l'ange du bizarre", como apontaria depois Baudelaire.

Na collage feita por Alejandro Puga a partir do óleo s/madeira intitulado Sabina Poppaea, onde está retratada a figura principesca de Gabrielle d'Estrée, temos duplicada uma incrível mulher que nos olha também com suas mãos, quase crispadas pelo movimento da ponta de seus dedos em gestos enigmáticos. Note-se que se trata de uma das obras singulares desta Escola de Fontainebleau; e mais: do mesmo autor de Sabina Poppaea, há outra pintura também reproduzida no álbum citado, intitulada Toilette ou Gabrielle d'Estrée et sa soeur, que seguramente Alejandro igualmente viu e conhece… Toilette já teve várias reproduções, sobretudo em função do insólito das duas mulheres nuas de face, com suas mãos deliciosas e esquisitas, de gestos sigilados, a da esquerda tocando levemente a ponta do seio direito da outra, na prática de um gesto secreto, de um rito desconhecido.

No quadro eleito por Alejandro Puga, como ponto-de-partida ou "disparador": Sabina Poppaea, têm-se uma das princesas da corte dos Louises, vestida ou "desnudada" por véus transparentes e com os seus braços semi erguidos, as suas mãos formando quase que duas borboletas em sombra-chinesa dos dedos arredondados, afilados e sensuais. Alejandro duplicou a imagem de Sabina Poppaea em uma dupla figura, formada pela duplicata oposta e ligada à figura original. Com tal recurso seus braços multiplicam-se, formando um estranho anagrama ou duplo "m", cujo "v" resulta da curva de suas nucas, abismadas até os ombros redondos que se tangenciam magnificamente. Ou seja, a imagem resultante da collage projeta-se em duplo fantasmal da Toilette, quadro anterior das duas irmãs, com Gabrielle tocando a ponta do seio direito de sua irmã, numa quase iniciação cifrada ao arroubo carnal. Assim, os braços de Sabina/Gabrielle erguem-se suavemente, como duas asas semi-levantadas, ao lado de outra Dama totalmente desnudada. O detalhe central é dado pelo fato de dois dedos da mão esquerda da princesa estarem tocando, segurando o mamilo direito da Outra, da Dama desnudada. Todo o conjunto formando uma espécie de cadeia de dois "m" visuais ou ummm… i.e. é visivel que temos uma representação cifrada do "m" - M de mystère - ou dois "mm" do Mesmo, ou do(s) mistério(s) múltiplo(s) da sedução.

Alejandro eliminou a figura da Dama e duplicou a figura da princesa de véus "denudada", fazendo com que a primeira tocasse o seu próprio seio na imagem duplicada de si mesma - que está no lugar da outra, da segunda. Com tal deslizamento, o gesto visível de apalpar, de sentir e tocar (instrumento) da provocação volta-se sobre si mesmo e re-ilumina a princesa - Sabina Poppaea (Gabrielle), multiplicando-a e lhe dando todo o sentido da projeção erótica, no imaginário selvagem da tarnsgressão mesma do corpo velado! É o corpo velado que se abre e se oferta a partir do corpo do Outro, da permanência no Outro do (meu) corpo do desejo. O corpo velado é a espera - é ela que pode nos tocar, e só ela, a espera, é que pode nos emocionar, nos co-mover de emoções.

Tudo conduz e me leva crer, no sentido de que Alejandro Puga trabalhou sobre a figura de Sabina/Gabrielle em Sabina Poppaea, mas que seu fazer projetou-se ou se fantasmou, digamos assim, por sobre a figura já duplicada e "duplamente" presente na Toilette. Pintura emblemática ou "parlante", onde, Gabrielle d'Estrée e sua irmã sendo símiles, fica explícito ou quase dito que são "a mesma", pois "na Repetição, não é o Mesmo que retorna mas é, sim, a sua Diferença", o Outro, como já o dizia Deleuze. Em ambas figuras desnudadas, temos um soberbo detalhamento dos dedos e da mãos em arabescos e pregas formando verdadeiros hieróglifos eróticos. Tanto a figura de Gabrielle/Sabina quanto a das duas irmãs estão nuas, apresentadas da cintura para cima, com destaque para o colo e seios nitidamente emblemáticos, o todo arrodeado ou sob os véus de um impalpável acento érotique-voilé.

Assim, embora partindo de uma figura distinta, nada impede que tenha ocorrido o que geralmente acontece, na hora do transbordo, do excesso, desse fazer excessivo da collage: um acúmulo de superposições, que se formam em diques de memória, os quais funcionam sempre em flutuantes e instáveis espécies de comportas móveis. Dando passo a um sem número de projeções e seminais "imagens novas". Diria até, o que é bem provável, que a estrutura de ritual entre Gabrielle d'Estrée e sua irmã tenha funcionado numa espécie de infra-estrutura, ou projeção fantasmal para a praxis da collage de Alejandro, ocupado não mais na escola de Fontainebleau mas, agora, na dupla aparição Sabina/Gabrielle, toda despegada e aberta em borboleta ouro-róseo com os dois "emes" de seus braços provocantes.

É óbvio que nem eu ou tampouco Alejandro pretendemos que o observador já saiba ou venha a se deter, por erudição, em tais meandros ou aproximações complexas, filigranas mais aprofundadas… mas sim que permita "perder-se" nas visíveis implicações desse espelho de Venus (ou "lettre-de-toi" em reversos de "toile-te"). Mas… o todo do impacto da imagem não é discursivo! O que se apresenta é, literalmente, a experiência desses deslizamentos; pouco importa se lidos, mas, isso sim, vistos e vividos enquanto uma visão nova! E não enquanto uma informação plástica, nem uma experiência redutora, analítica de uma eventual representação, datada e classificada na História das Artes. Não se trata de algo irreal e nem de visão onírica, fantasiosa… Tampouco se trata de devaneio mas de uma visão ativa, tanto mais que permanece, como se poderia dizer, enquanto uma sonhação.

Especificamente caracterizada por uma intervenção, collage é rasgo, é gesto de ruptura radical na linguagem plástica, animada desde seu princípio pela irrupção da poesia no campo plástico. E da poesia em sua acepção primeira, pois amálgama de transformações e aparições, fonte da imagem nova. A collage rompe o discurso, o fluir linear, reto e apolíneo, instaura pois o descontínuo do intempestivo, do embriagado dos sentidos, do entregue e perdido Dyonisio. Abre para uma nova visão e/ou uma revolução literal dos sentidos, rompendo com os significados anteriores e seus eventuais esteticismos, substituídos que são por uma nova manifestação. O processo da collage permite um re-encantamento das coisas. Enquanto experiência vívida de transformação e perdas, é processo de atua(liza)ção, pode ir modificando o Mundo, o qual, como Bachelard já observou, é e permanece sendo belo, visto que é admirado antes de ser compreendido! A imagem, matriz da poesia, implica como tal uma relação do espírito, uma inter-ação, ou, melhor, uma praxis inaugural e reveladora, um literal descobrimento do Mundo, que está sempre re-descoberto, re-velado. Re-encantamento do Mundo pois a collage é uma ação/atuação sobre e no Mundo (enquanto as colagens mantêm as regras e medidas, as normas de um mundo já dado).

Como já vimos acima, para Alejandro Puga a perspectiva expressa é a do re-encantamento do Mundo - e todas suas possibilidades de fascínio e desejo em aberto. Não por acaso, a erótica é uma das vertentes presentes em toda a obra plástica e poética. Mais para o "érotique-voilé" de que nos fala L'Amour Fou.

De 1997 para cá, tive a oportunidade de incluir, na troca de cartas com Alejandro, um outro enfoque da relação entre sua poesia escrita e, digamos assim, … visual. Foco situado a partir dos laços presentes em suas collages recentes, retomando incluso certos acentos de Pararrayos.

Pararrayos para mim, esse literal "latido azul" da sua poesia, inscreve-se qual uma aurora boreal na poesia de hoje. Sua força e sua beleza residem numa violência primeira que carrega sempre em suas mãos, em suas folhagens e suas palavras, o próprio mordente da creação - creio que seus poemas e collages fazem parte de um mesmo canto amoroso, um mesmo gritar por iluminações. Volto ao clamor romântico: "ver o iluminado e não a luz", como precisou Goethe. Por ser gesto plástico e radical, "au-delà de la peinture" dizia Ernst, a collage é uma atuação formadora, fundante, capital para a poesia, a qual por princípio articula-se fora do linear. Diria que a poesia começa com uma quebra, de tempo ou ritmo que se inscreve, abrindo-se ao pensamento que explode, que escapa ao racionalismo, a lógica utilitária do senso comum. A poética própria da collage perverte a linguagem convencional e explode num saber plural. Seu corpo não é o mesmo corpo do acadêmico e nem uma somatória de fragmentos. Na collage não se trata de uma globalização de fragmentos… São pedaços de abismo o que lhe dá a forma e como tal, sempre o todo em questão (ou "o ser" de si), seu território é o campo do fascinante, aquele da imaginação.

Apesar de jamais ser um quesito tão-somente pictórico, ou talvez por isso mesmo, a collage é e permanece enquanto linguagem plástica estendida, "mais além da pintura" como vimos. E linguagem poética por excelência.

Entretanto, cabe frisar: da mesma forma que uma imagem nova exige uma escrita nova, temos que a experiência da collage exige uma nova figuração e sensibilização, um corpo de forma nova, enfim. As formas usuais, simples ou coladas, não respondem à enorme provocação da collage e nem às suas crispações seminais. Mas, nem sempre observa-se a mudança e tampouco suas implicações. Ora, face a mesmice dos fazeres e afazeres, à recusa de qualquer alteração que venha perturbar o "nada passar, não acontecer", retomo a assertiva de Floriano Martins, em carta de 23/06/96, quando a afirma com devida ênfase: "Passar por uma determinada experiência e seguir vivendo sem o alcance da dimensão do vivido, de sua compreensão, é algo que não consigo entender, é algo que nega o próprio instinto de curiosidade", pois… é a negação do princípio mesmo do entendimento.

Quero crer que a crítica literária terá sérias dificuldades em avaliar o montante de triunfos que propõe Puga, sobretudo ao publicar as poesias articuladas, interligadas com as collages. Talvez venha a ocorrer um estratégico silêncio, artifício via de regra usado por acadêmicos e/ou especialistas do "literário", na falta de identidade ou vaga nos guichês de classificações pré-estabelecidas e da lista de gêneros… Lamento tanto a ausência de André Pieyre de Mandiargues quanto a de Mário Pellegrini (1903-1973), animador permanente e inesquecível do Movimento Surrealista na capital portenha, dos idos de 1926 aos '70. Tanto Mandiargues quanto Pellegrini teriam a maior alegria em enfatizar este novo tremor que perpassa por essa obra. E que não merece ficar inédita.

Sem esquecer dos estudos de Alejandro (e as trocas com seu amigo Kirim, que passaria a ser um ardoroso leitor de Giordano Bruno) sobre "a arte da memória", disparados a partir do seminário A Imagem como Conhecimento (1986), deve-se considerar igualmente essencial a re-creação de corpos iluminados e de um singular bestiário imaginário, ambos apanágio do "homem selvagem", ou l'homme du désir (Saint Martin). Portanto, ao bestiário imaginário que se faz e está presente em boa parte dos autores do Surrealismo, pois artífices do re-encantamento do Mundo, corresponde a re-criação de sua fauna e flora, das suas águas e terras, das outras cores e outros saberes.

Ao que poderíamos acrescentar em dístico ou tabuleta de estalagem, balançando no vento e na luz de outrora:

O "rayo" é de ouro, o relâmpago é de ouro, mas a trovoada não. "O silêncio é de ouro", sábio adágio alquímico e magista. Contudo… contudo, o "silêncio" da não-presença ou do lacunar, para voltarmos ao literário, é de uma outra ordem, é, digamos, menor…

Ao passo que a busca (la quête) é única, é inicial!

Toda busca é silenciosa, mas a procura não o é. Todas as grandes aves e feras de rapina são silenciosas, mas o papagaio não.

A "gaya sciencia" também não.

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Sérgio Lima (1939) é poeta, ensaísta e artista plástico. Publicou livros como A alta licenciosidade (1985) e A aventura surrealista (1995). Página ilustrada com collages de Alejandro Puga. Contato com o autor: sergiocflima@bol.com.br.


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A arte poética de Alejandro Puga que se expõe na escrita e na collage

Sérgio Lima